sexta-feira, 19 de julho de 2013

324.


E me beija com calma e fundo, até minh’alma se sentir beijada. O meu amor tem um jeito manso que é só seu, que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes. Depois brinca comigo, ri do meu umbigo e me crava os dentes. Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz.

—
Chico Buarque. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

323. Da Felicidade Como Não-Constante


A felicidade é uma constante em sua vida? Na minha parca experiência, pude notar certas coisas que me fizeram mudar as principais pilastras de pensamento que nos cercam e atingir um pouquinho mais do que o senso comum. Foi o que acabei por chamar de “senso de falta”.
Supunha uma tristeza incontrolável. Talvez, seu ápice de adolescência. Imagine que nesse seu estado torpe de vida, em que tudo é ridicularizável e você deseja se sentir o mais especial dentro de um grupo, você realmente consegue ser o mais especial dentro de um grupo.
Ante a morfologia da palavra “especial”, temos “espécie”, e tudo aquilo que é específico. Se você desempenha uma função na vida de alguém que só você consegue desempenhar, você é especial para ele/ela. O “senso de falta” desta pessoa tilintaria caso ela te perdesse, faltaria um momento-chave na vida dela, que é a sua presença e suas ações.
Entretanto, não há meios de sempre ser especial. E estou falando muito mais num sentido emocional do que empresarial. Não conseguimos ser o ápice de todos os cantos apresentados na sociedade. Temos que nos contentar com aquilo que, por hora, temos e somos.
Creio que o único sentimento, então, que é uma constante em sua vida e que, em momentos de felicidade, se torna uma via secundária, é a “indiferença”. O homem é um ser que de um lado está triste e entediado e às vezes está triste e sofrendo realmente. Porém, o único sentimento que paira sobre esses é o da indiferença. Como poderia não sê-lo? Como poderias tu se importar com as coisas das quais não tem conhecimento?
A felicidade é algo que galgamos em momentos-chave que se tornam, às vezes, inesquecíveis. Não há como viver em uma felicidade plena, caso contrário, não seria mais felicidade, mas sim apenas a indiferença.
Em exemplo: só quem andou de ônibus/metrô/trem durante muitos anos sabe a felicidade que é ter um carro próprio e a liberdade de não se submeter a horários fixos. Quem nunca teve que suar num coletivo em pé e tem a mordomia de um carro próprio provavelmente não sente a “tristeza” da falta de tê-lo.
E quando a sociedade sofre certas crises financeiras que lhe fazem vender seu carro à preço de banana nanica, é aí que o peso vai pender e a pessoa não aguentará descer seu nível social.
Nos momentos-chave aqui suscitados, pode-se considerar logicamente, então, que o não-ter e o ter-em-excesso são opostos definidores da felicidade aos olhos do ser humano. Uma vez que você tem aquilo que nunca teve, sempre pensa que será muito zeloso e cuidadoso com o objeto ou pessoa em questão. Na prática, acontece um pouco diferente.
De quando comprei meu carro, realmente achava que o lavaria uma vez a cada duas semanas. Lavei apenas uma vez por mês, durante três meses. Não conseguia deixá-lo limpo, tampouco tinha paciência para lustrá-lo à cera e coisas mais. Demorou pouco até que eu quisesse trocar de carro e não muito mais até que eu ficasse irritado com as contas a pagar e com todas as finanças indiretamente associadas ao bem.
A felicidade em questão não se trata apenas do automóvel, mas sim de um momento em que você vive, perdulário ou não, num esquema temporal. Houve época de minha vida em que fiquei um ano inteiro feliz. Houve época que o sentimento era recorrente, porém, o dia-a-dia era maçante. Não adianta buscar a felicidade constante, pois somos eternos insatisfeitos por natureza.
Foi isso que nutriu esse senso de grandeza que o ser humano tem. Foi isso que desenvolveu toda a sociedade extremamente consumista. A gana de querer chegar mais longe, de querer obter mais. É claro, isso causa certos danos, à posteriori, dificilmente reparáveis, um efeito colateral do desenvolvimento desenfreado, que por sua vez é efeito colateral da motivação de ter (eterna insatisfação).
(...)
Então, se um dia você escutasse uma dica minha, a menos indiferente seria: tente sempre manter a felicidade recorrente, mas nunca constante.
Em pulos de alegria, em “ter prato entupido de comida que você mais gosta, ser carregado ou carregar gente nas costas”, de voltar a sentir o perfume da sua antiga casa ou revisitar aquele rio em que você naufragava enquanto jovem. Mas se isso ocorre todo dia, pode apostar que a mesma paisagem te faz enjoar e procurar sempre aquilo que você não tem ou não pode ter.
Trocando em miúdos: a dosagem é a métrica mais importante. De grão em grão a galinha enche o papo, nem sempre feliz, mas pelo menos não está enjoada da sua felicidade para com as pequenas coisas que ela realmente pode ter.



segunda-feira, 1 de abril de 2013

322.

Tomanocu

terça-feira, 26 de março de 2013

321. Como sobreviver a uma mulher na TPM




Começa com uma paciência por nada. As cócegas se vão e em vez da risadinha gostosa, um empurrãozinho pedindo que você pare. Ou houve problemas no trabalho ou ela está chegando. Você inventa de cozinhar e ela diz que não está com fome. Pede para abaixar o som do carro, que está com dor de cabeça. Diz o mesmo quando você, todo se querendo, a beija no pescoço e fala como ela está cheirosa. Provavelmente você vai ouvir algo sobre o dia insuportável que demorou a passar e o quão cansada ela está. Pronto. Ela está presente.

Sábios eram os antigos, que decretavam, neste momento um "salve-se quem puder". Iriam caçar, pescar ou tomar uma com os amigos e voltaria quando ela já estivesse dormindo. Não entraria em casa antes da luz apagar e ela cansasse de esperar para tirar-lhe o couro. Mas os tempos são outros. As desculpas não colam. As responsabilidades são divididas. E se alguém canta de galo, não será você. O primeiro mandamento para lidar com uma mulher em TPM é compreender e assimilar essa sua subordinação. 

A meta é uma só. Sobreviver. Você e o relacionamento. Ao acordar, evite falar o desnecessário. Piadas são muito, mas muito indesejáveis. Bom dia seguido de sorriso é suficiente. No café da manhã, ofereça tudo antes de consumir. Se só resta uma fatia de queijo, não pegue, não se ofereça para dividir. Deixe com ela. O mesmo vale para o café. Eu sei o quanto você precisa de café, mas vá por mim, é melhor parar no caminho e comprar um copo ou simplesmente tomar no trabalho. Antes de sair, ela vai perguntar por alguma coisa que você esqueceu. Elas sempre guardam as perguntas para a hora que você está saindo e será justo o que você não lembra. Também questionará o horário que você vai voltar ou os planos para a janta. Nesse momento você apenas diz que está tudo resolvido, que liga até o final da manhã com os planos prontos e que tem que correr. Um beijo (não muito demorado) e um "Te amo", rápido, letal. Isso vai poupar-lhe algumas horas. 

No trabalho, se receber uma SMS ou uma mensagem por rede social, responda na hora. Não tem isso de estar numa reunião. Se não puder, diga "Numa reunião. Ligo já" e, em menos de 40 minutos, ligue! Nem que peça para ir ao banheiro e aproveite a oportunidade. Antes das duas da tarde, mande mensagem dizendo que está com saudades ou dizendo o horário que irá apanhá-la onde ela estiver. Puro. Simples. Confiante. Sem margens para que ela reclame de sua falta de iniciativa, compromisso ou atitude. Mas, ao final, conste: "Se preferir algo diferente, basta avisar". Pondo ordem na casa. 

Ao encontrá-la, diga que ela está linda. Ela vai fechar a cara. Dirá que está gorda. Responda, em no máximo 1,5 segundo, que não. Impressão. Que ela está ótima. Sugira um restaurante que ela não vai querer ir, mas que você gosta. Em seguida, depois do "pode ser" ou do "ah tá", emende com um "ou a gente poderia ir ao local X, onde tem aquele Petit Gateau que você gosta". E não se deixe convencer pelo "Não, tudo bem, vamos para esse outro mesmo". Truque, meu caro! Dos mais baixos. 

Na mesa, concentre-se em manter o olhar fixo e reto. Não desvie o olhar, especialmente se houver outras mulheres em volta. Em hipótese nenhuma pergunte como foi o dia dela ou mencione sua mãe. Chame o garçom apenas para olhá-la e perguntar "Quer alguma coisa?" e decida o prato a ser pedido, que você, necessariamente, já deve saber que ela goste. Nunca, em nenhuma hipótese, olhe o relógio ou fite o celular e o guarde no bolso. Jamais! 

Na volta para casa, dê-lhe algo. Chocolate, uma fotografia impressa, sorvete (só não erre o sabor). Qualquer coisa que não seja um boleto de cobrança. Pergunte (sempre) se a temperatura está agradável (mesmo que esteja insuportável para você). Enquanto ela estiver no banho, prepare um chá e deixe os remédios dela na cabeceira, aguardando-a. Procure fingir, rapidamente, que dorme. Se ela agasalhar-se em seus braços, deixe. Não se mova nunca, mesmo que ela já esteja dormindo (esse é outro jogo baixo). Se o braço ficar dormente, retire-o cuidadosamente, mas faça cafuné até que você durma. 

Repita a receita durante os dias seguintes. Não são muitos. Durante o período, mantenha-a sempre longe de objetos pontiagudos e, claro, armas de fogo. Se notá-la sorrindo pela manhã já é sinal que pode voltar à rotina comum. E, meu caro, se em algum momento dessa sequência você deixar escapar "Está estressada?", "Mas você já não tomou remédio?", "Estás diferente...", "Já, já, passa", "Fique calma" ou "Tenho uma coisa para te contar"... Bem, boa sorte!

- Ed Wanderley

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Utilidade pública. Minhas tpm's não são intensas, mas essas dicas são válidas.